Alguns motores são propulsores; o W16 da Bugatti foi um manifesto. Oito litros, quatro turbos, dezesseis cilindros dispostos como quem desafia a própria engenharia a existir — a arquitetura mais extravagante que a indústria automotiva produziu em um século. Agora, o carro que encerrou essa linhagem vai a leilão pela primeira vez: a Broad Arrow anunciou a inclusão de um Bugatti W16 Mistral em seu leilão do Quail, em Carmel, na Califórnia, marcado para 13 e 14 de agosto, com estimativa entre US$ 8 e 10 milhões.

O Bugatti Mistral e o fim de uma era

O Mistral não é um hipercarro qualquer: é o ponto final. Roadster derivado do Chiron, ele foi concebido deliberadamente como o último modelo a ser movido pelo quad-turbo W16 — o motor que definiu a Bugatti moderna desde o Veyron de 2005 e que a marca aposentou para abraçar o futuro híbrido do Tourbillon. Cada Mistral saído de Molsheim carregava, de fábrica, a consciência de ser um epílogo.

Daí a delicadeza da estimativa. Precificar um carro comum é aritmética; precificar uma despedida é outra coisa. O comprador do Mistral não adquire desempenho — adquire o direito de possuir o último capítulo de um dos motores mais celebrados da história recente. É o mesmo cálculo afetivo que move os que compram os últimos V8 sem eletrificação: o valor não está na potência, está na finitude.

O Quail como termômetro do adeus

O leilão de agosto na Califórnia — parte da semana de Monterey, o maior palco do colecionismo mundial — testará quanto o mercado paga por esse tipo de nostalgia contemporânea. Não se trata de um clássico de décadas, mas de um carro quase novo cujo valor deriva inteiramente de seu lugar na cronologia: o último de sua espécie, antes mesmo de envelhecer. É a valorização por posição, não por pátina.

A cena dialoga com o que a temporada vem revelando. Enquanto a Ferrari leva o chassi zero de seu futuro elétrico ao mesmo circuito, a Bugatti despacha o encerramento de sua era térmica. Passado e futuro dividindo os mesmos martelos, os mesmos telefones, o mesmo público bilionário — o colecionismo, como sempre, comprando os dois extremos da linha do tempo.

O vento mistral, que dá nome ao carro, é aquele que varre o sul da França com força e sai de cena tão depressa quanto chegou. A Bugatti escolheu bem o batismo: seu último W16 nomeia-se em homenagem ao que passa forte e não volta. Em agosto, o martelo dirá quanto vale ter guardado essa rajada numa garagem.