Há despedidas que pedem companhia e despedidas que exigem solidão. O McLaren 788HS, apresentado ao público entre os dias 9 e 12 de julho no Festival de Velocidade de Goodwood, pertence à segunda espécie. É o último V8 da casa inglesa a responder apenas por si mesmo — sem assistência híbrida, sem motor elétrico preenchendo os baixos regimes, sem nenhuma das muletas eletrônicas que a década prometeu a todos os esportivos. Woking decidiu que a linhagem iniciada pelo 720S terminaria como começou: com gasolina, turbinas e a convicção de que um bom motor não precisa de tradutor.

A aritmética do McLaren 788HS

Os números explicam o nome e dispensam adjetivos. O conhecido 4.0 biturbo da família M840T foi levado a 788 cv a 7.500 rpm — daí o batismo — com 800 Nm de torque entregues a 5.500 giros. A McLaren fala em 2,8 segundos até 60 mph, 7 segundos cravados até 200 km/h e máxima de 330 km/h. São cifras que o colocam no topo de uma dinastia que atravessou quase dez anos, do 720S de 2017 ao 750S, e que agora recebe seu ponto final mais extremo.

O contexto da apresentação não foi acidente. Goodwood, com sua subida de colina diante de um público que ainda aplaude ruído de admissão, era o único palco possível para um carro que se recusa a sussurrar — o mesmo festival, aliás, em que a Alpine foi provar que a leveza também pode ser elétrica. Os dois caminhos se cruzaram na mesma colina inglesa, cada um apontando para um futuro diferente.

A leveza como último argumento

A ironia é que o argumento decisivo do 788HS não é a potência, e sim a subtração. Com cerca de 1.265 kg de peso seco, ele é aproximadamente 12 kg mais leve que o 750S — apesar de carregar mais aerodinâmica sobre a carroceria. O resultado é a melhor relação peso-potência de toda a família, obtida do modo mais trabalhoso possível: grama por grama, peça por peça.

Pela primeira vez, a marca oferece carroceria em fibra de carbono aparente, dispensando até o peso da tinta. Dentro, os bancos tipo concha herdados do Senna, console central em carbono e uma placa de dedicatória que cada proprietário poderá personalizar. Nada ali celebra o conforto; tudo celebra a intenção. O McLaren 788HS não quer ser o mais fácil de conviver — quer ser o mais difícil de esquecer.

Duzentas chances de dizer adeus

Serão 200 exemplares, divididos com precisão britânica: cem cupês, cem Spider. Cada unidade passa pela McLaren Special Operations como uma comissão sob medida — nenhum 788HS sairá de fábrica igual a outro, o que transforma a série limitada em duzentos exemplares únicos. O preço oficial não foi anunciado; a imprensa especializada estima algo entre 400 e 600 mil dólares antes dos opcionais, com encomendas mais ambiciosas da MSO capazes de ultrapassar o milhão. As primeiras entregas acontecem ainda em 2026.

Há quem veja nesse gesto uma teimosia, e há quem veja um rito. A verdade talvez seja mais simples: toda tecnologia que parte merece partir no auge, e o V8 biturbo da McLaren — depois de quase uma década empurrando a marca de volta à primeira fila — conquistou o direito de escolher a própria saída. Enquanto outros se despedem devolvendo ao motorista o direito de errar a marcha, Woking se despede confiando ao motor a última palavra.

A eletrificação chegará, como chega a todos. O 788HS apenas garantiu que o final fosse dito com a própria voz. Não é resistência. É pontuação.