A Dinamarca não tem tradição automobilística, não tem autódromos lendários, não tem sequer limites de velocidade generosos. Tem, agora, o V12 mais potente já instalado num carro de produção para as ruas. O Zenvo Aurora Tur foi revelado em forma definitiva de produção no Festival de Goodwood — dois protótipos de validação e um show car da variante Agil, recém-saídos das preparações finais na fábrica de Præstø —, e o nome do motor entrega a pretensão: Mjølner, o martelo de Thor.
Zenvo Aurora Tur: a aritmética do trovão
O martelo em questão é um 6.6 V12 com quatro turbos, desenvolvido em parceria com a MAHLE Powertrain, com meta de 1.250 cv entregues a estratosféricos 9.800 rpm — regime de motor aspirado numa arquitetura sobrealimentada, uma contradição deliberada e deliciosa. Três motores elétricos somam mais 600 cv, levando o conjunto do Tur, de tração integral, à casa dos 1.850 cv combinados. Com peso seco na meta de 1.450 kg, a projeção é de 0 a 96 km/h em 2,3 segundos.
A produção será de 100 unidades no total, divididas igualmente entre o Tur — o grão-turismo extremo — e o Agil, focado em pista, cada uma partindo de mais de US$ 2,8 milhões. As primeiras entregas estão programadas para ainda este ano. É pouco carro para muito planeta, e é assim que a casa dinamarquesa quer: no clube dos hipercarros, a Zenvo sempre preferiu ser a anfitriã excêntrica a ser a vizinha educada.
A última palavra de uma espécie
Há um contexto que dá peso ao lançamento. Enquanto os V8 se despedem com honras e os sucessores elétricos sobem colinas em silêncio, um estúdio de engenharia da Dinamarca decidiu construir o auge da espécie em extinção: doze cilindros, quatro turbos, quase dez mil giros. O Aurora não nega a eletrificação — usa três motores elétricos sem cerimônia —, mas a coloca a serviço do V12, e não o contrário. É a diferença entre um substituto e um escudeiro.
O nome nórdico, nesse quadro, deixa de ser marketing e vira tese. Na mitologia, Mjølner era a arma que sempre voltava à mão de quem a arremessava. O V12, arremessado para fora da indústria por uma década de regulamentos, volta aqui com força dobrada — ainda que para as mãos de apenas cem pessoas.
Os deuses do trovão nunca foram democráticos. Foram, no entanto, inesquecíveis — e é exatamente a esse posto que Præstø se candidata.