Todo agosto, a península de Monterey vira a capital mundial do colecionismo — e os catálogos divulgados nas semanas anteriores funcionam como trailer da temporada. O da RM Sotheby’s para o leilão de 13 a 15 de agosto traz o lote que resume a década: o chassi número 0 da Ferrari Luce, primeira unidade de produção do programa que marca a nova era de Maranello, em especificação Tailor Made — oferecido sem reserva, com a totalidade da renda destinada à Ferrari Foundation.
A Ferrari Luce e o peso do número zero
Chassis inaugurais são a nobreza do colecionismo: o exemplar que abre a numeração de um modelo histórico carrega, para sempre, o título de primeiro. No caso da Luce, o simbolismo dobra de tamanho — trata-se do capítulo elétrico mais aguardado da casa, e o carro que inaugura sua contagem será vendido diante do público de Monterey, sem preço mínimo, em benefício da fundação da marca. É a Ferrari usando a própria história futura como instrumento filantrópico: o lance vencedor comprará menos um automóvel e mais uma certidão de nascimento.
A companhia de catálogo está à altura. Um F50 de 1995 — o aniversariante da vez, na casa dos 30 anos — sobe ao palco no sábado; um LaFerrari de 2015, de único dono e 711 milhas rodadas, representa a era híbrida; um Testarossa de 1988 entregue no Texas e um F430 em Blu Tour de France com pinças amarelas completam a linhagem. Cinco décadas de Maranello no mesmo fim de semana.
Monterey como termômetro
O leilão chega com o mercado em momento revelador. O verão europeu mostrou recordes em Woodcote Park puxados pelos jovens clássicos, e Silverstone testa nesta semana a coleção de Anthony Hamilton. Monterey, o maior palco de todos, dirá se o apetite atravessa o Atlântico — e o chassi 0 da Luce, sem reserva e sem precedente, será o teste perfeito: quanto vale o primeiro exemplar do futuro?
Há algo de elegante em Maranello doar exatamente este carro. Fabricantes costumam guardar seus números zero em museus próprios, embalsamados. A Ferrari preferiu leiloá-lo diante do mundo, transformando o marco em gesto — e garantindo, de quebra, que o preço do seu futuro seja estabelecido em praça pública, sob o martelo mais observado do planeta.
Em Monterey, tradicionalmente, disputa-se o passado. Neste agosto, pela primeira vez, o lote mais simbólico disputará outra coisa: o direito de dizer que o amanhã de Maranello começou na sua garagem.