Toda coleção de carros é uma autobiografia estacionada. A que vai a leilão no próximo fim de semana em Silverstone tem um autor que o automobilismo conhece bem: Anthony Hamilton, pai do campeão de Fórmula 1 Lewis Hamilton, venderá 26 carros de sua coleção pessoal pela Iconic Auctioneers, durante o fim de semana inaugural do BRDC Classic — os de competição na sexta-feira, 24, os de rua no sábado, 25.

A coleção de Anthony Hamilton, lote a lote

O topo do catálogo é um Porsche 911 (993) Turbo Cabriolet de 1995 — um dos cinco exemplares com volante à direita — estimado entre £700 mil e £800 mil. Atrás dele, um Jaguar XJ220 de 1994 com apenas 3.277 milhas rodadas (£500–550 mil), uma recriação do Bentley 4½ Litre Blower de 1927 (£425–525 mil), um XKSS construído pela D Type Developments com 537 milhas (£325–375 mil) e um par de recriações do C-type pela Coventry Classics (£175–225 mil cada). É a garagem de quem começou sem nada e passou a comprar exatamente o que quis.

O fim de semana terá ainda relíquias de outros pódios da cultura britânica: a bicicleta de paddock de Damon Hill em sua temporada de título e um Jensen Interceptor III de 1972 que pertenceu a John Bonham, baterista do Led Zeppelin. Dias antes, no sábado passado, a Historics abriu a temporada tardia de julho com sua venda Summer Serenade à beira dos lagos de Windsorview, em Datchet.

O teste que o mercado observa

A venda chega em momento delicado para parte do catálogo: os Jaguar acumulam queda de 21,4% no primeiro semestre. O detalhe salvador é que a maioria dos lotes felinos são recriações, não originais — um bolsão do mercado que os analistas descrevem como mais resiliente, comprado por quem quer dirigir a lenda sem carregar a planilha. Depois do verão recorde de Woodcote Park, Silverstone será o segundo termômetro da temporada inglesa.

Mas o que dá gravidade ao martelo é a biografia. Anthony Hamilton é o personagem que acumulou empregos para manter o filho no kart — a história fundadora de um dos maiores campeões da era moderna. Cada carro desta coleção foi comprado do outro lado dessa travessia. Vendê-los não é desapego: é o último capítulo de uma história sobre chegada.

Garagens se desfazem por muitas razões — herança, mudança, cansaço. As melhores, porém, se desfazem como esta: com a missão cumprida e o martelo servindo de ponto final.