Como se conta a biografia de um país em objetos? A Sotheby’s oferece sua resposta nesta semana, ao celebrar o semiquincentenário dos Estados Unidos — os 250 anos da Declaração de Independência — com uma venda que atravessa dois dias e dois endereços icônicos de Nova York. Entre os destaques estão um raro retrato de George Washington por Gilbert Stuart, uma serigrafia de Andy Warhol do cifrão do dólar e manuscritos de trabalho de Bob Dylan e Bruce Springsteen — em 28 de julho no The Dominick, no SoHo, e 29 no edifício Breuer.

A Sotheby’s e a América em três atos

A curadoria dos destaques é, ela própria, uma tese sobre o que é a América. O retrato de Washington por Gilbert Stuart representa a fundação — a imagem do primeiro presidente que virou ícone nacional, reproduzida até na nota de um dólar. O cifrão de Warhol representa o que o país se tornou — a nação que transformou o dinheiro em arte e a arte em mercadoria, com ironia pop. E os manuscritos de Dylan e Springsteen representam sua voz popular — os bardos que narraram a América comum, das estradas às fábricas.

Reunir os três num mesmo evento é escrever uma frase completa: a América do mito fundador, a do capital e a do povo, lado a lado sob o mesmo martelo. Poucas vendas conseguem tamanha densidade simbólica — não são apenas objetos valiosos, são capítulos de um país postos à venda, cada um resumindo uma era.

O documento como arte

O elemento mais revelador talvez seja a presença dos manuscritos de trabalho. Diferentemente da tela acabada, o manuscrito de uma canção mostra o processo — as rasuras, as versões descartadas, a hesitação do gênio antes da forma final. Colecionar o rascunho de uma música que o mundo inteiro conhece é possuir o momento anterior à imortalidade, o instante em que a obra ainda podia ter sido outra. É a intimidade da criação transformada em objeto de desejo.

A venda insere-se num ano de intensa reverência ao passado que atravessa toda a cultura — do bourbon destilado com métodos do século XVIII em Mount Vernon às efemérides que mobilizam museus e mercados. O semiquincentenário é, para o mundo da arte, uma oportunidade de ouro: nada precifica melhor um objeto do que uma data redonda e um sentimento nacional em alta.

Duzentos e cinquenta anos é tempo suficiente para uma nação virar coleção. A Sotheby’s apenas organizou a exposição — e colocou preço no que, no fundo, não tem: a imagem de um fundador, a ironia de um artista, a voz de um povo. O martelo dirá quanto vale possuir um pedaço da América. A história, essa, seguirá pertencendo a todos.