Em 1923, uma jovem paulistana de 37 anos chegou a Paris com um único objetivo declarado: aprender a pintar como os modernos. Cem e três anos depois, Paris se rende a ela. A retrospectiva Tarsila do Amaral — Inventer le Brésil, que abriu no Centre Pompidou em maio, é a maior exposição já dedicada a uma artista latino-americana na história do museu. E talvez a mais importante.

Cem e três anos depois

A curadoria, assinada por Cécile Debray (presidente do Pompidou) e Aracy Amaral (a historiadora brasileira de 96 anos que é a maior autoridade viva sobre a artista), reúne 142 obras vindas de coleções de cinco continentes. Estão lá A Negra (1923), Abaporu (1928), Antropofagia (1929) e — pela primeira vez exibidas juntas em Paris — as quinze telas da fase Pau-Brasil, distribuídas por uma sala circular projetada como uma floresta tropical estilizada.

“Tarsila não foi uma artista que pintou o Brasil”, declara Debray, durante a coletiva de imprensa do dia inaugural. “Ela inventou o Brasil pictórico. Cada cor, cada forma, cada repetição rítmica de sua paleta — tudo isso é uma decisão deliberada de codificar um país que, em 1928, ainda não sabia se ver.”

A vanguarda parisiense não foi a primeira a chegar. Foi a primeira a se reconhecer no que viu.

O modernismo que veio do trópico

O argumento central da exposição — desenvolvido em sete salas temáticas — é que o modernismo europeu do entreguerras só se completou quando dialogou com a obra de Tarsila. Especialmente os cubistas tardios e os surrealistas, que viam em A Cuca (1924) e em Abaporu (1928) uma síntese formal que Picasso e Léger ainda tateavam.

O catálogo da mostra — 480 páginas, edição bilíngue francês-português, ensaios de Aracy Amaral, T. J. Demos, Hal Foster e Hélio Oiticica (póstumo) — reposiciona Tarsila no panteão modernista internacional. Não como influência regional. Como protagonista.

A consequência inevitável

Há outra dimensão, mais imediata, sendo registrada em Paris: o mercado. Desde a abertura da exposição em 12 de maio, três telas de Tarsila trocaram de mãos em leilões privados na Sotheby’s e Christie’s — todas por preços recorde. Sol Poente (1929), vendida em maio por €31,4 milhões, é hoje a obra mais cara de uma artista latino-americana já leiloada na história.

“Estamos diante de um momento de validação tardia, mas profunda”, observa Pablo Léon de la Barra, curador internacional que acompanha a circulação da obra brasileira no eixo Paris-Nova York-São Paulo. “Tarsila sempre foi maior do que se reconhecia. Agora o mundo está, finalmente, tendo que admitir.”

A exposição segue no Pompidou até 14 de setembro. Em outubro, viaja para o MASP, em São Paulo — onde, ironicamente, será pela primeira vez exibida em sua escala completa para o público brasileiro.