A Rua Cônego Eugênio Leite, em Pinheiros, mede 1,4 km. Em uma manhã de quinta-feira, contei 23 fachadas em obra, 4 restaurantes prestes a inaugurar e 2 sommeliers caminhando para o trabalho com baldes de gelo. Estamos diante do fenômeno gastronômico mais relevante de São Paulo em uma década — e ele acontece em três quarteirões.

O guia Michelin chegou. Tarde, mas chegou

Em maio, o guia Michelin Brasil reorganizou seu ranking paulistano. Pela primeira vez, três restaurantes da Cônego Eugênio Leite receberam estrelas: o Oryza de Tsuyoshi Murakami (uma estrela), o Ena de Hiroshi Koba (duas estrelas) e o Maní de Helena Rizzo e Daniel Redondo (três estrelas — a primeira fora do Jardim Paulistano). É inédito. E não é coincidência.

“Pinheiros virou possível há cinco anos, quando o aluguel do Jardins ficou impraticável”, explica Rizzo, sentada na cozinha do Maní durante uma pausa entre serviços. “Mas só virou inevitável agora, porque uma geração inteira de chefs decidiu morar aqui. E ninguém quer cozinhar longe de casa.”

Pinheiros não foi descoberto. Foi habitado. A diferença muda tudo.

O ecossistema que se construiu sozinho

Ao redor dos três estrelados, formou-se um ecossistema próprio: padarias de fermentação natural, açougues secos especializados, vinhotecas de garagistas, baristas com prêmios internacionais. A Rua dos Pinheiros, paralela, abriga oito bares de coquetelaria que competiriam em qualquer ranking global. A Cardeal Arcoverde tem três torrefações artesanais. A vizinha Vila Madalena, antes epicentro, agora parece subúrbio.

“O que mudou Pinheiros não foi a gastronomia”, observa Koba, do Ena. “Foi a noção de que era possível fazer alta cozinha sem o ritual do bairro nobre. Sem manobrista de gravata. Sem entrada por porta de vidro fumê. A informalidade brasileira finalmente encontrou seu próprio luxo.”

O quarto restaurante

Em julho, abre o Kintaro, do chef portenho Mauro Colagreco — primeiro projeto sul-americano do dono do Mirazur, três estrelas Michelin no sul da França. Quarenta e cinco lugares, reservas abertas até janeiro de 2027. O ticket médio estimado: R$ 1.800 por pessoa.

“Pinheiros é o que Saint-Germain era nos anos 60”, disse Colagreco, durante a única entrevista que concedeu sobre o projeto. “Um lugar onde o futuro está sendo decidido sem que o presente perceba.”

Caminho de volta pela Cônego, à tarde. Três funcionários da prefeitura discutem um projeto de calçada compartilhada. Um músico de jazz afina o instrumento na esquina. Um casal chega de bicicleta com sacolas de uma vinícola argentina. Não há, em nenhum lugar visível, a palavra luxo. Talvez seja exatamente esse o ponto.