Há números que a moda usa para impressionar e números que usa para rezar. Os da estreia de Pierpaolo Piccioli na alta-costura da Balenciaga pertencem à segunda categoria: 24.150 plumas de gazar desfiado aplicadas a um único bustiê; 8.000 pétalas pintadas à mão, uma a uma; meses de trabalho por vestido. Na manhã de quarta-feira passada, numa escadaria da Cité Internationale Universitaire emoldurada por um paisagismo de jardim real, o costureiro romano apresentou sua primeira coleção para a casa — e reposicionou, com ela, o próprio eixo da maison.
O que Piccioli trouxe à Balenciaga
A declaração de princípios veio do próprio estilista: a alta-costura, disse, é “uma maneira de criação capaz de orientar as ações e reações de uma casa” — e aqui ela volta a ser “o centro do significado da maison, moldando seu ser”. Não é retórica vazia. Depois de uma era em que a Balenciaga falou mais alto pela provocação do que pelo corte, a coleção devolveu o vocabulário fundador ao palco: o rosa em abundância, as plumas de avestruz e, sobretudo, a silhueta balão — o volume que Cristóbal introduziu em 1953 —, retrabalhada em jaquetas e saias monumentais.
O diálogo com o arquivo foi literal em pelo menos dois momentos: o vestido de alta-costura do outono-inverno 1950, criado para Hattie Carnegie, renasceu como longo negro de chiffon de seda; e um look de 1967, com plumas de galo, foi adaptado para o corpo de Gigi Hadid. A colaboração com Philip Treacy completou o gesto, com esculturas de plumas que dissolvem a fronteira entre chapelaria e vestido.
A mão como manifesto
O que torna essa estreia mais do que uma troca bem-sucedida de cadeiras é o contexto. A costura vive uma temporada de recomeços — em Paris como em Roma —, e Piccioli escolheu respondê-la não com choque, mas com ofício: volumes empilhados como esculturas botânicas, técnica levada ao ponto em que vira emoção. É a mesma aposta que faz um bordado atravessar séculos: a mão humana como único efeito especial que não envelhece.
Há também uma lição de temperamento. O costureiro chega a uma casa conhecida pela ironia e responde com sinceridade — plumas, pétalas, rosa. Nenhuma peça da coleção pisca para a internet; todas olham para o ateliê, na contramão de uma década em que a moda reaprendeu seus códigos nos fóruns e nos feeds. O risco é evidente. A recompensa, se vier, também será: casas de moda não são salvas por escândalo, são salvas por assinatura.
Cristóbal Balenciaga dizia-se costureiro, não estilista. Setenta anos depois, um romano subiu uma escadaria em Paris para lembrar a diferença — pluma por pluma, pétala por pétala.