O mercado de arte adora enterrar os clássicos — e os clássicos adoram comparecer ao próprio velório com talão de cheques alheio. Na virada de junho para julho, a Classic Week londrina entregou o desmentido mais eloquente em anos: as vendas de Old Masters da Christie’s e da Sotheby’s somaram, juntas, mais de £100 milhões, com quase vinte recordes mundiais entre as duas casas. Numa temporada em que o contemporâneo pisa em ovos, foram os séculos passados que pagaram a conta.

A quarta-feira da Christie’s, a quinta da Sotheby’s

A Christie’s abriu os trabalhos em 30 de junho com £50,7 milhões e sete recordes mundiais. A venda noturna rendeu £38,9 milhões em 39 lotes, com 90% vendidos — a maior taxa de aproveitamento por lote que a casa já registrou na categoria. No topo, um retrato de 1820 do Duque de Wellington por Thomas Lawrence, arrematado por £9,7 milhões: o herói de Waterloo, mais de dois séculos depois, ainda vencendo disputas em solo inglês.

No dia seguinte, a Sotheby’s respondeu com £51,3 milhões — seu melhor resultado desde 2019 e o terceiro da última década na categoria. A noturna somou £37,7 milhões, alta de 160% sobre julho do ano passado, com mais de dez recordes. Entre eles, um Rembrandt recém-restaurado, Let The Little Children Come Unto Me, vendido por £8 milhões, e um Landseer que estabeleceu novo teto para o artista, a £5,9 milhões.

O grito de treze milhões

O lote que resume a semana, porém, não é pintura. O Laocoonte de Hamilton — mármore neoclássico monumental que reencena o sacerdote troiano estrangulado pelas serpentes — alcançou £13,62 milhões, o segundo maior preço já pago em leilão por uma escultura pré-moderna. Há uma justiça estranha nisso: a imagem de Laocoonte, desde a Antiguidade, é o retrato da agonia que não se cala. Dois milênios de história da arte depois, o grito segue audível — agora em libras esterlinas.

O que a semana revela é menos nostalgia e mais aritmética. Num mercado desconfiado, o comprador migra para o que já sobreviveu a todas as modas — a mesma lógica que faz um bordado de nove séculos mobilizar dois países e que devolve os modernistas aos grandes museus. A escassez é o único argumento de venda que o tempo só fortalece: ninguém pintará outro Rembrandt, e os leilões sabem cobrar por essa certeza.

Vanguardas envelhecem, assinaturas oscilam, índices corrigem. O mármore, esse, atravessa os séculos sem perder o fôlego — gritando o preço, para quem quiser ouvir.