Giverny foi desenhada para dissolver contornos. Foi ali que Monet passou décadas convencendo o mundo de que a luz importa mais que a linha, que um jardim pode ser paleta, que a fronteira entre a água e o céu é uma convenção dispensável. É precisamente nesse território que acaba de se instalar o homem que dedicou a vida à mais obstinada das linhas: desde sexta-feira, Daniel Buren ocupa Giverny com Plantations, travaux in situ — carte blanche do Musée des impressionnismes ao artista, em cartaz até 1º de novembro.
Daniel Buren em Giverny: a régua no país da névoa
Aos 88 anos, Buren segue fiel ao gesto que o definiu: listras verticais, brancas e coloridas, de exatos 8,7 centímetros — a medida que adotou como assinatura e que aplica há décadas para revelar o lugar em vez de decorá-lo. Em Giverny, as Plantations se espalham pela paisagem em grandes planos tingidos de azul, amarelo, preto, vermelho e violeta, inseridos no verde da colina e dos jardins, e avançam para dentro das salas do museu, onde dialogam com a coleção.
O confronto é o argumento. Onde Monet e Caillebotte perseguiam o tremor da água e do céu — o instante que escapa —, Buren instala a cor no próprio espaço que o visitante atravessa. A percepção deixa de ser contemplação e vira deslocamento: a obra muda a cada passo, porque o passo faz parte da obra.
O in situ como jardinagem
Há uma ironia fértil no título. Plantar era o verbo de Monet, que tratava os canteiros como pinceladas de longa duração; agora é o verbo de um conceitual que nunca pintou paisagem. Mas o método, no fundo, é o mesmo: escolher o lugar exato, considerar a luz, aceitar que o entorno termina a obra. O in situ de Buren — feito para aquele sítio e impensável fora dele — é uma forma de jardinagem tão rigorosa quanto a que floresce do outro lado do vilarejo.
A Normandia, aliás, vive um verão de reencontros entre séculos — na mesma região em que um bordado de novecentos anos acaba de atravessar o Canal da Mancha, um artista vivo vem lembrar que o contemporâneo também sabe conversar com o passado sem pedir licença. É o mesmo tipo de diálogo que levou Tarsila de volta a Paris: a história da arte não anda em linha reta, ela volta aos lugares onde foi feliz.
Até novembro, quem subir a colina de Giverny verá as duas escolas no mesmo quadro: a névoa e a régua, o instante e o intervalo. Monet dissolveu a linha para capturar o tempo. Buren traça a linha para que o tempo, ao passar por ela, se torne visível.
No fim, toda listra é um caule. Basta plantá-la no lugar certo.