A história da arte tem seus gênios celebrados, seus gênios malditos — e depois tem Richard Dadd, que não cabe em prateleira alguma. No próximo sábado, dia 25, a Royal Academy de Londres abre Richard Dadd: Beyond Bedlam, exposição dedicada às obras “altamente originais” do pintor vitoriano — o mais talentoso e o mais trágico de sua geração, autor de uma obra minuciosa produzida, em grande parte, entre os muros de instituições psiquiátricas.

Richard Dadd, o caso que Londres revisita

A biografia desafia qualquer roteirista. Jovem prodígio da Royal Academy Schools nos anos 1830, Dadd era a promessa mais luminosa de sua turma quando uma viagem ao Oriente Médio precipitou o colapso: acometido pela doença mental, matou o próprio pai em 1843 e passou o restante da vida internado — primeiro no hospital de Bethlem, o “Bedlam” que dá título à mostra, depois em Broadmoor. Foi lá dentro, com tempo infinito e mundo nenhum, que pintou as telas que o consagrariam: universos em miniatura de precisão alucinante, povoados de fadas, folhas e criaturas descritas fio a fio, como se o pincel quisesse recensear a realidade inteira.

O título da exposição — além de Bedlam — anuncia a tese curatorial: tirar Dadd da moldura do caso clínico e devolvê-lo à história da pintura, onde sua técnica obsessiva e sua imaginação sem paralelo sempre mereceram assento próprio.

A lupa como estilo

O que torna Dadd permanentemente contemporâneo é a escala do olhar. Suas obras exigem o que o século XXI menos oferece: aproximação demorada. Não há como consumi-las em passada de corredor — cada centímetro é um parágrafo, e a leitura completa de uma única tela pode ocupar uma tarde. Numa era de imagens instantâneas, a Royal Academy oferece o antídoto perfeito: pintura que só funciona devagar, parente espiritual dos bordados que se leem por metros.

Há também a pergunta inevitável — e o cuidado necessário ao fazê-la — sobre arte e sofrimento psíquico. A mostra chega numa década que aprendeu a discutir saúde mental sem romantizá-la; Dadd, que pagou o preço integral da sua, é o caso-limite que obriga o público a separar a lenda da obra. A obra, vista de perto, dispensa a lenda.

Toda pintura pede um passo atrás para ser vista. A de Dadd pede o contrário: um passo à frente, depois outro — até que o museu inteiro desapareça e reste apenas o mundo em miniatura que um homem construiu para substituir o que perdeu.