A aviação venceu a guerra da velocidade há um século, e talvez por isso o verdadeiro luxo tenha trocado de lado. No dia 22 de outubro, o La Dolce Vita Orient Express partirá de Roma em direção a Istambul — cinco dias e quatro noites para um trajeto que qualquer companhia aérea resolve em pouco mais de duas horas. A tarifa, a partir de € 20 mil por passageiro, deixa clara a inversão de lógica: não se paga para chegar. Paga-se para demorar.
Orient Express Roma Istambul: o roteiro da lentidão
O itinerário é uma aula de geografia sentimental. O trem deixa Roma ao entardecer e ruma ao norte, até Veneza, onde os hóspedes ganham um dia inteiro entre palácios e canais. Segue então para o leste: Budapeste, depois os Cárpatos, com paradas em Brașov e Sinaia, na Romênia — nomes que a literatura de viagem do século XX tratava como fronteiras do imaginário —, antes da chegada ao Bósforo. É a velha rota do Expresso do Oriente recontada com sotaque italiano.
O sotaque, aliás, é o ponto. Primeiro trem de luxo fabricado na Itália, o La Dolce Vita entrou em serviço em abril de 2025 com itinerários domésticos a partir de Roma, e seu desenho interior presta homenagem aos mestres do design italiano dos anos 1960 — a década em que a península ensinou o mundo a misturar rigor e prazer. A bordo, a cozinha leva a assinatura de Heinz Beck, chef três estrelas Michelin, transformando cada refeição em capítulo do roteiro, não em pausa dele.
O tempo como tarifa
Há algo de contracorrente em lançar uma travessia de cinco dias numa era de conexões de duas horas. Mas o raciocínio é o mesmo que sustenta uma noite num ryokan de Kyoto: o deslocamento como experiência central, não como custo entre dois pontos. A janela do trem faz o que nenhuma tela reproduz — muda de assunto a cada minuto, sem pressa e sem repetição, dos Apeninos aos Cárpatos.
É curioso notar que essa aposta na lentidão convive, no mesmo mercado, com jatos que colocam continentes ao alcance de uma manhã. Não são propostas rivais; são humores diferentes do mesmo viajante. Quem pode tudo, em algum momento, descobre que a raridade suprema é não ter para onde correr.
Roma e Istambul foram, cada uma a seu tempo, capitais do mesmo império. Entre elas há Veneza, Budapeste e um século de literatura ferroviária. O trem apenas reata a frase que a pressa interrompeu — e cobra, com justiça, pelo privilégio da vírgula.