O número, sozinho, já diz muito sobre o Explorer 100. Não é a maior embarcação de lazer do mundo, tampouco pretende sê-lo. É, porém, uma das maiores já concluídas em território nacional e isso, num país que raramente aparece no mapa da alta náutica, tem peso próprio. 

A construção do casco coube ao Estaleiro Arpoador, em Guarujá, no litoral paulista. A conversão em superiate ficou a cargo da Inace SuperYachts, com projeto assinado por Fernando Almeida. O valor girou em torno de R$ 120 milhões — cifra que impressiona menos pelo montante do que pelo endereço de origem. Barcos dessa envergadura costumam sair de estaleiros holandeses, italianos ou alemães, com séculos de tradição acumulada. Que um deles tenha tomado forma entre Fortaleza e o Guarujá é o dado que merece atenção.

A gramática de um iate explorer brasileiro

O termo ‘explorer’ não é adorno de catálogo. Descreve uma filosofia de projeto. Ao contrário dos iates de linhas afiladas, pensados para deslizar entre marinas do Mediterrâneo, o explorer nasce para a distância e para a permanência. Casco robusto, autonomia ampla, capacidade de sustentar longas temporadas a bordo sem a dependência constante da terra firme. É a diferença entre o veleiro que passeia e o navio que se instala no mar.

Sob o convés, quatro motores Caterpillar de 1.450 cavalos cada movem a embarcação por propulsão a hidrojato — solução que dispensa hélices expostas e favorece a navegação em águas rasas, entre ilhas e enseadas. A velocidade máxima estimada, na casa dos 20 nós, não é a de um barco esportivo, e nem deveria ser. Um explorer negocia com o tempo, não corre contra ele. Seis suítes e um heliponto completam o programa de bordo, dimensionado para receber, hospedar e permanecer.

Da costa cearense a Angra dos Reis

A viagem inaugural traça o próprio contorno do país. O Enejota partiu de Fortaleza, fez escala na Marina de Recife e segue pela costa em direção a Angra dos Reis, no litoral fluminense — arquipélago de mais de trezentas ilhas que há décadas funciona como vitrine e destino natural da náutica de luxo brasileira. Não é coincidência. Angra é onde os grandes cascos se exibem sem pressa, ancorados diante de praias que só o mar alcança.

Além do proprietário célebre

Há, no episódio, uma camada que ultrapassa o proprietário célebre. A alta náutica nacional viveu anos de promessa não cumprida, alternando surtos de otimismo e recuos diante da carga tributária e da falta de escala. Uma peça deste porte, concebida e finalizada aqui, sugere que o conhecimento técnico existe e amadureceu. Falta, talvez, a continuidade que transforma feito isolado em tradição.

Duas letras num casco. Iniciais que anunciam um dono, mas que poderiam, com alguma licença, assinalar outra coisa — a de que um estaleiro brasileiro entregou, sem pedir desculpas, uma embarcação à altura dos grandes nomes do ofício. O mar dirá quantas milhas ela percorre. A indústria, essa, já registrou o recado.