Maiorca tem duas costas e duas biografias. A do sudoeste, de marinas e beach clubs, pertence às revistas de verão; a do oeste, de socalcos de pedra despencando no mar, pertence aos pintores e a quem sabe chegar. É nessa segunda ilha que acaba de abrir o Gran Hotel Margalida, em Banyalbufar: 29 suítes da ANNUA Signature Hotels debruçadas sobre os terraços agrícolas que há séculos escalonam a encosta até a água.
O Gran Hotel Margalida e o século escolhido
A reforma, assinada pela designer de interiores Virginia Nieto, escolheu com precisão sua década de referência: o glamour mediterrâneo de meados do século passado — a era em que a ilha recebia artistas e aristocratas em fuga, antes dos voos fretados. Texturas naturais, materiais locais, linhas arquitetônicas limpas e um amarelo sob medida, lavado de sol, que atravessa os ambientes como assinatura cromática. Nada grita; tudo aquece.
A escala é o outro manifesto. Vinte e nove suítes, num mercado que mede sucesso em centenas de chaves, significam uma aposta na hotelaria de proprietário — aquela em que a recepção sabe seu nome no segundo dia e o bar guarda seu lugar na terceira noite.
Banyalbufar, a Maiorca dos socalcos
O endereço faz metade do argumento. Banyalbufar é o vilarejo dos marjades — os socalcos de pedra seca erguidos há mil anos para cultivar vinha e hortas de frente para o mar, hoje patrimônio paisagístico da serra de Tramuntana. Não há areia branca nem calçadão: há mirantes, calas de pedra e o azul vertical que só as costas altas oferecem. É a Maiorca para quem já cumpriu a outra.
A abertura conta também uma tendência de mercado: enquanto as grandes redes disputam os endereços consagrados do Mediterrâneo, casas menores avançam sobre as geografias intactas — os vilarejos que o turismo de volume nunca soube monetizar e que o novo viajante, saturado de aeroportos e continentes ao alcance de uma manhã, aprendeu a desejar exatamente pelo que não têm.
Os socalcos de Banyalbufar levaram dez séculos para serem empilhados, pedra a pedra, por gente que trabalhava de frente para o mar sem tempo de olhá-lo. As 29 suítes recém-abertas existem para corrigir essa dívida histórica: alguém, finalmente, sentado diante da paisagem — sem mais nada para fazer.