Salões aeronáuticos medem-se pela régua mais honesta que existe: a caneta. E a de ontem escreveu sem parar — o primeiro dia de Farnborough fechou com US$ 48,8 bilhões em negócios anunciados, a preços de lista, incluindo pedidos firmes de 234 aeronaves comerciais. A edição recorde em expositores, que antecipamos na véspera da abertura, estreou também recordista em apetite.
O primeiro dia de Farnborough em assinaturas
A Boeing madrugou: quase 150 pedidos garantidos ao longo do dia, incluindo 15 787-10 para a Philippine Airlines e mais 28 Dreamliners para a Riyadh Air. A Airbus respondeu à tarde, e o lance mais revelador veio de quem não escolheu lado — a arrendadora SMBC Aviation Capital assinou por 100 Boeing 737 MAX e, na mesma jornada, por 100 Airbus da família A320neo. Cem de cada: a diplomacia da frota levada à perfeição aritmética.
A Riyadh Air praticou o mesmo bilinguismo em escala widebody: além dos Dreamliners, firmou mais seis A350-1000, elevando a 31 seu compromisso com o modelo — parte do plano de até 50 unidades anunciado no ano passado. A companhia saudita, que ainda não completou seu terceiro ano de operação, segue montando frota no ritmo de quem desenha um hub do zero e não pretende chegar modesta.
O que os números dizem além dos números
Primeiro: o ciclo de compras não esfriou. Depois de anos de filas de entrega e gargalos de produção, especulava-se que as companhias fariam pausa técnica; o dia de ontem respondeu com 234 aviões firmes e fila nova. Segundo: a era da lealdade exclusiva a um fabricante terminou — os pedidos espelhados da SMBC e da Riyadh Air mostram compradores administrando risco industrial como se administra carteira: diversificando.
Para o Reino Unido, anfitrião, a conta veio com sotaque próprio: cerca de £7,7 bilhões do primeiro dia irrigam a indústria aeroespacial britânica — motores, asas, aviônica. O salão que apresenta os elétricos do futuro segue pagando as contas com a aviação do presente.
Restam quatro dias de feira e a tradição diz que o grosso das assinaturas vem cedo. Mas o recado do primeiro dia já está dado: no céu comercial, a década seguirá sendo de quem consegue entregar — porque comprar, como Hampshire demonstrou antes do almoço, ninguém desaprendeu.