Durante um século, a popa foi o quintal dos iates: lugar de amarras, tênderes e despedidas. A década atual inverteu o mapa — e poucas linhagens explicam melhor essa inversão do que a série Oasis, da Benetti, que acaba de somar mais um capítulo: o Lady Sarah, de 40,8 metros, lançado em maio e agora oficialmente entregue a seus proprietários no estaleiro de Livorno.
O Benetti Oasis 40M por dentro
A receita da série está intacta e refinada: na popa, um beach club de verdade — não a plataforma de cortesia que o mercado chama assim —, com piscina generosa, áreas de estar ao nível da água e varandas que se desdobram do casco, ampliando a praia particular a cada fundeio. É o iate desenhado de trás para a frente: primeiro o convívio com o mar, depois o resto.
O resto, no caso, tem pedigree. As linhas externas são do estúdio britânico RWD; os interiores, da Bonetti/Kozerski Architecture — a dupla nova-iorquina de vocabulário minimalista e materiais quentes. Sob o casco de GRP em deslocamento, dois MAN V12 de 1.400 cv empurram o conjunto a 16 nós de máxima. A bordo, dez hóspedes em cinco suítes, servidos por até nove tripulantes, num volume interno de 385 GT distribuído por três conveses, boca de 8,5 metros e calado de 2,14.
A popa como filosofia
Os números, porém, contam menos que a tese. O Oasis 40M nasceu da constatação de que o proprietário contemporâneo não navega para exibir o barco — navega para desaparecer nele. Da grande janela de popa à piscina rente ao mar, tudo conspira para a mesma cena: a família na água, o iate como anfiteatro. É a versão flutuante do que os grandes resorts de promontório vendem em terra: a geografia privada como luxo definitivo.
A entrega chega num momento eloquente do mercado: na mesma semana em que os gigantes alemães testam células de combustível e os holandeses batem recordes de comprimento, o médio porte italiano segue vendendo outra coisa — não a fronteira tecnológica, mas a fronteira do uso. Quarenta metros é a medida em que o iate ainda é casa, não instituição; em que o dono ainda conhece o nome de cada tripulante.
Há iates que se medem da proa à popa. Os Oasis pedem a medida contrária: da popa — onde a vida acontece — até onde a proa conseguir acompanhar. O Lady Sarah zarpa de Livorno com essa aritmética resolvida.